Demências: Quando o esquecimento deixa de ser normal e passa a exigir investigação
Nem todo esquecimento é sinal de demência, mas os primeiros sinais costumam ser atribuídos erroneamente à idade.
- Dr. Shigueo Yonekura – Neurologista em São Paulo – SP
- Mais de 40 anos de experiência – CRM: 44519/SP l RQE Nº: 77390

O que é a doença de Alzheimer e por que o diagnóstico precoce importa?
A doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência. Caracteriza-se pelo acúmulo progressivo de proteínas anormais no tecido cerebral, entre elas a beta-amiloide, que compromete a comunicação entre os neurônios e leva à perda gradual de funções cognitivas, começando pela memória recente.
O processo se instala muito antes dos primeiros sintomas evidentes. Alterações cerebrais podem estar presentes anos antes de a família perceber que algo mudou, e é nesse intervalo que existe maior margem para intervenção. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais opções terapêuticas estão disponíveis e mais tempo se pode preservar de autonomia.
Quais são os sinais de que o esquecimento merece avaliação neurológica?
Os sinais variam conforme a causa e o estágio, mas os mais frequentes são:
- Repetição da mesma história ou da mesma pergunta em um intervalo curto;
- Esquecimento de fatos recentes com preservação de memórias antigas;
- Dificuldade para encontrar palavras comuns durante uma conversa;
- Desorientação em trajetos e ambientes familiares;
- Dificuldade para executar tarefas antes automáticas, como pagar contas ou seguir uma receita;
- Alterações de humor, apatia ou irritabilidade sem causa aparente;
- Afastamento de atividades sociais que antes eram prazerosas;
- Redução do cuidado com aparência, alimentação ou medicação;
- Comprometimento do julgamento em decisões cotidianas.
O que pode estar por trás de um quadro de declínio cognitivo?
Doença de Alzheimer
A causa mais frequente de demência. O comprometimento começa pela memória recente e evolui de forma gradual, atingindo linguagem, orientação espacial e capacidade de executar tarefas complexas. A evolução é lenta e progressiva, o que faz com que os primeiros sinais sejam frequentemente atribuídos à idade.
Demência Vascular
Decorre de lesões nos vasos cerebrais, frequentemente associadas a hipertensão, diabetes e episódios de acidente vascular cerebral. O padrão de evolução costuma ser diferente do Alzheimer, com perdas que aparecem em degraus em vez de gradualmente. Pode coexistir com o Alzheimer no mesmo paciente.
Causas Reversíveis
Existe um grupo de condições que produz sintomas semelhantes à demência e que responde ao tratamento da causa: deficiência de vitamina B12, disfunções da tireoide, depressão com apresentação cognitiva, efeito de medicações de uso contínuo e distúrbios do sono não tratados. Identificar essas causas é uma das razões pelas quais a investigação não pode ser dispensada.
Outras Demências
Demência com corpos de Lewy, demência frontotemporal e quadros associados à doença de Parkinson apresentam perfis próprios de sintomas e evolução. A distinção entre elas exige avaliação neurológica detalhada e tem consequência direta sobre a conduta.

Por que esperar para ver se piora é a decisão mais custosa?
O adiamento tem dois custos. O primeiro é que parte das causas de declínio cognitivo é reversível, e cada mês sem investigação é tempo em que uma condição tratável segue sem tratamento. O segundo é que, quando a causa é neurodegenerativa, as opções terapêuticas são mais amplas nos estágios iniciais.
O padrão de perceber, aguardar, perceber de novo e continuar aguardando é o mais comum e o mais custoso. A avaliação não confirma um diagnóstico temido, ela define o que está acontecendo e o que pode ser feito a respeito.
O que o declínio cognitivo provoca além do esquecimento?
O comprometimento cognitivo raramente se limita à memória. À medida que evolui, afeta a capacidade de julgamento, a orientação e a execução de tarefas que sustentam a independência: administrar as próprias finanças, tomar a medicação corretamente, dirigir com segurança.
Há também o impacto sobre humor e comportamento. Apatia, irritabilidade e afastamento social aparecem com frequência nas fases iniciais e são muitas vezes interpretados como características da idade ou como depressão isolada, quando fazem parte do quadro.
O efeito sobre a família é parte do que a avaliação precisa considerar. A convivência com um quadro não diagnosticado gera conflito, culpa e decisões adiadas. O diagnóstico não apenas orienta a conduta clínica, ele permite que a família se organize com informação em vez de suposição.


Percebeu sinais de esquecimento em você ou em alguém da sua família?
O Dr. Shigueo Yonekura é neurologista com formação em Neurologia e Sono pelo Hospital das Clínicas da USP, com atuação voltada à investigação e ao tratamento de condições neurológicas que envolvem memória, sono e cognição.