Insônia: Quando mais remédios para dormir não são a solução

A insônia é uma das queixas mais frequentes no consultório, e tem muito mais causas do que a maioria das pessoas imagina.

  • Dr. Shigueo Yonekura – Neurologista em São Paulo – SP
  • Mais de 40 anos de experiência – CRM: 44519/SP l RQE Nº: 77390
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Homem sentado na beira da cama, à noite, com as mãos cobrindo o rosto
Mulher deitada na cama, sobre lençóis brancos, cobrindo o rosto com as mãos

O que é insônia e por que ela não pode ser normalizada?

Insônia é a dificuldade persistente para iniciar o sono, mantê-lo ao longo da noite ou obter descanso dormindo a quantidade ideal. O critério aqui não é o número de horas dormidas, mas o prejuízo funcional na rotina.

Durante o sono o cérebro consolida memórias, regula hormônios e elimina resíduos metabólicos acumulados durante o estado de vigília. Essas funções dependem da alternância entre as fases do sono ao longo da noite e quando essa alternância é interrompida de forma repetida, o prejuízo se estende para além do cansaço.

A insônia é mais bem categorizada como um sintoma, não um diagnóstico em si. Ela indica que algum ponto da regulação do sono está comprometido, e esse ponto precisa ser identificado antes que qualquer conduta seja definida.

Quais são os sinais de que a insônia já está afetando o seu organismo?

Os sintomas variam conforme a duração e a causa, mas os mais frequentes são:

  • Dificuldade para iniciar o sono e mente acelerada no momento de deitar;
  • Despertares durante a madrugada, com dificuldade para voltar a dormir;
  • Despertar antes do horário desejado sem conseguir retomar o sono;
  • Sono de duração adequada que não traz sensação de descanso;
  • Cansaço e sonolência persistentes ao longo do dia;
  • Irritabilidade e oscilações de humor sem causa aparente;
  • Dificuldade de concentração, lapsos de memória e queda no rendimento;
  • Necessidade crescente de medicação para conseguir dormir.

Quais são os tipos de insônia e suas causas?

Essa é a parte que mais surpreende quem trata a insônia apenas como dificuldade para dormir. As causas se agrupam em categorias distintas, e o tratamento adequado depende de identificar qual delas está presente.

  • Insônia Primária

    Nesse caso, a dificuldade para dormir não é consequência de outra condição. O que está alterado é o funcionamento dos circuitos cerebrais responsáveis por alternar entre vigília e sono. O cérebro permanece em estado de alerta em um momento em que deveria estar reduzindo sua atividade. É uma das formas mais frequentes de insônia crônica e uma das mais mal compreendidas, porque não aparece em exames convencionais.

  • Insônia Associada a Quadros Emocionais

    Ansiedade e depressão alteram o funcionamento do sono, e a privação de sono agrava ambos os quadros. A relação é bidirecional, o que faz com que o tratamento isolado de um dos lados produza apenas uma melhora parcial.

  • Distúrbios Respiratórios no Sono

    Interrupções repetidas da respiração fragmentam o sono ao longo da noite, frequentemente sem que o paciente as perceba. O quadro típico envolve ronco, sono de duração adequada sem descanso e sonolência durante o dia. É uma das causas mais subdiagnosticadas de insônia, e é identificada através do exame de polissonografia.

  • Insônia Associada a Distúrbios do Movimento

    Causada por condições como a síndrome das pernas inquietas que provocam despertares breves que fragmentam o sono. Em muitos casos o paciente não recorda os despertares e relata apenas cansaço ao acordar.

  • Alterações do ritmo circadiano

    Acontece com quem trabalha em turnos, com quem viaja com frequência entre fusos e com pessoas cujo ciclo natural está adiantado ou atrasado.

  • Insônia por Dependência de Medicação

    O uso continuado de indutores do sono altera a própria arquitetura do sono e gera tolerância. O paciente passa a depender do medicamento para dormir, sem que a qualidade do sono tenha melhorado. É uma causa de insônia que decorre do próprio tratamento, e exige condução cuidadosa.

Mulher dormindo à noite ao lado de cartelas de comprimidos e um copo d'água na mesa de cabeceira

Por que o remédio para dormir pode atrasar o diagnóstico?

Essa é a situação mais frequente no consultório. O indutor do sono reduz o tempo até adormecer, mas induzir sono e restaurar a qualidade do sono não são a mesma coisa. Quando a causa é apneia, movimento periódico dos membros, ritmo circadiano deslocado ou um quadro de humor não tratado, o medicamento atenua a queixa sem interferir no mecanismo que a produz.

E há um custo. O uso prolongado gera tolerância, exige doses maiores para o mesmo efeito e, em alguns casos, passa a interferir na própria qualidade do sono que se pretendia recuperar.

O ciclo de tomar o remédio, dormir um pouco melhor, tentar parar e voltar ao ponto inicial é sinal de que a causa ainda não foi investigada. Cada ciclo sem investigação é mais tempo convivendo com um problema que tem solução.

O que a insônia crônica provoca além do cansaço?

A privação de sono sustentada por meses ou anos não causa apenas desconforto. O sono participa da regulação da pressão arterial, metabolismo, resposta imunológica e da consolidação da memória. É também durante o sono profundo que o cérebro elimina proteínas residuais acumuladas ao longo do dia, incluindo a beta-amiloide, associada ao desenvolvimento da doença de Alzheimer, e quando esse processo é interrompido de forma crônica, o acúmulo se mantém.

O impacto cognitivo é o que mais leva pacientes ao consultório: dificuldade de concentração, lapsos de memória e queda no desempenho, por isso a investigação do sono é parte da avaliação neurológica.

Mulher sentada na cama, enrolada em um edredom branco, com a mão no rosto, aparentando cansaço
Dr. Shigueo Yonekura, neurologista, em seu consultório

Tem insônia frequente ou depende de medicamentos para dormir?

O Dr. Shigueo Yonekura é neurologista com formação em Neurologia e Sono pelo Hospital das Clínicas da USP, com atuação voltada à investigação e ao tratamento dos distúrbios do sono.

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