TOC: Quando os mesmos rituais passam a controlar o seu dia

O transtorno obsessivo-compulsivo é uma das condições que mais demoram a receber diagnóstico, e uma das que mais são confundidas com traços de personalidade.

  • Dr. Shigueo Yonekura – Neurologista em São Paulo – SP
  • Mais de 40 anos de experiência – CRM: 44519/SP l RQE Nº: 77390
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Mulher observa de perto lápis coloridos enfileirados sobre uma mesa de vidro e os alinha com a ponta do dedo
Homem ajusta com a ponta do dedo o alinhamento de uma fileira de lápis verdes sobre a mesa

O que é o TOC e por que ele precisa ser investigado?

O transtorno obsessivo-compulsivo se caracteriza por duas manifestações que se alimentam: Obsessões, que são pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos que surgem contra a vontade e geram angústia, e compulsões, que são comportamentos ou rituais mentais executados para aliviar essa angústia.

O que define o quadro não é o conteúdo do pensamento, mas a impossibilidade de descartá-lo. A pessoa costuma reconhecer que a preocupação é desproporcional e ainda assim não consegue interromper o ciclo. O alívio produzido pela compulsão é temporário, e cada repetição reforça o mecanismo, o que faz o quadro se ampliar com o tempo.

Do ponto de vista neurológico, o TOC envolve o funcionamento alterado de circuitos que conectam o córtex frontal a estruturas profundas do cérebro responsáveis por sinalizar quando uma ação já foi concluída. Quando esse circuito opera de forma desregulada, o cérebro não registra o encerramento da tarefa, e o impulso de repetir se mantém.

Quais são os sinais de que o quadro precisa de avaliação?

Os sintomas variam conforme o tipo de obsessão e a gravidade, mas os mais frequentes são:

  • Pensamentos intrusivos e repetitivos que surgem contra a vontade e causam angústia
  • Necessidade de verificar repetidamente portas, janelas, gás ou aparelhos
  • Rituais de limpeza ou lavagem além do que a situação exige
  • Necessidade de que objetos estejam em ordem, simetria ou posição específica
  • Contagens, repetições mentais ou frases ditas internamente para neutralizar um pensamento
  • Dificuldade para concluir tarefas por necessidade de refazer ou revisar
  • Evitação de lugares, objetos ou situações que desencadeiam o pensamento
  • Tempo significativo do dia consumido por verificações ou rituais
  • Angústia intensa quando o ritual é interrompido ou impedido
  • Dificuldade para iniciar o sono por atividade mental persistente

O que pode estar por trás de um quadro obsessivo-compulsivo?

  • TOC como condição primária

    A alteração está no funcionamento dos circuitos que conectam o córtex órbito-frontal, o giro do cíngulo anterior e estruturas profundas do cérebro. Esse circuito participa da sinalização de erro e de conclusão da tarefa, e quando opera de forma hiperativa, o cérebro segue sinalizando que algo está incompleto mesmo depois da ação executada.

  • Transtorno de ansiedade com apresentação obsessiva

    A preocupação excessiva e recorrente da ansiedade generalizada pode ser confundida com obsessão. A distinção está na presença de compulsões e no caráter intrusivo e egodistônico do pensamento, ou seja, o paciente o reconhece como estranho a si mesmo. A conduta é diferente para cada quadro.

  • Quadros associados a condições neurológicas

    Sintomas obsessivo-compulsivos podem aparecer associados a transtornos de tique, à síndrome de Tourette e a outras condições que envolvem os mesmos circuitos. Nesses casos fazem parte de um quadro mais amplo e a avaliação neurológica define a conduta.

  • Distúrbios do sono como fator de manutenção

    A privação de sono reduz a capacidade de controle inibitório exercida pelo córtex frontal, que é justamente a função comprometida no TOC. Pacientes com sono cronicamente fragmentado costumam relatar intensificação dos sintomas, e o ciclo se mantém porque a atividade mental noturna dificulta o início do sono.

O que o TOC provoca além dos rituais?

O custo do TOC raramente se limita ao tempo consumido pelas compulsões. A carga cognitiva de manter pensamentos intrusivos sob controle ao longo do dia reduz a capacidade de concentração e a disponibilidade mental para outras tarefas, o que costuma se refletir em queda de rendimento.

O impacto sobre o sono é frequente e muitas vezes não é relatado espontaneamente. A atividade mental persistente dificulta o início do sono, e o sono comprometido reduz o controle inibitório no dia seguinte, o que intensifica os sintomas. As duas condições se reforçam quando não são tratadas em conjunto.

Há também o custo relacional e o isolamento. O constrangimento em relação aos rituais leva muitos pacientes a escondê-los, o que atrasa o diagnóstico e amplia a evolução do quadro antes da primeira avaliação.

Mulher de olhos fechados, com a mão no rosto, recebe o apoio de uma pessoa que toca seu ombro
Dr. Shigueo Yonekura, neurologista, em seu consultório

Tem pensamentos que não saem da cabeça ou rituais que ocupam parte do seu dia?

O Dr. Shigueo Yonekura é neurologista com formação em Neurologia e Sono pelo Hospital das Clínicas da USP, com atuação voltada à investigação e ao tratamento de condições que envolvem sono, humor e cognição.

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